Apetece - Miguel Torga

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!



Miguel Torga in "Cântico do Homem" 1950

O sono é Suave - Fernando Pessoa

O SONO É SUAVE, mas o meio-sono
É mais suave ainda. Estar sabendo
Que se está nesse lúcido abandono
É como a brisa à sombra se entretendo.

O amor é suave, mas o amar-talvez
É mais suave ainda. É como estar
Sobre a extensão alegre de um convés
A fitar sem os ver o céu e o mar.

A vida é suave, mas poder haver
Outra melhor é mais suave ainda.
É como entre a erva alta o malmequer
Que, uma vez visto, todo o campo alinda.

Assim, sob altos ramos rumorosos
Pensei, e a breve e incerta viração
Dava-me pensamentos mais ditosos
Do que quaisquer felicidades dão.

Pouco sabemos do que há ou somos.
Nada sabemos do que nos espera.
Para uns a vida é fruta, com seus gomos
Para outros é só a primavera.


29/06/1919
Fernando Pessoa in «Poemas 1908-1935»

Soneto -Antonio Botto


Se, para possuir o que me é dado,
Tudo perdi e eu próprio andei perdido,
Se, para ver o que hoje é realizado,
Cheguei a ser negado e combatido.

Se, para estar agora apaixonado,
Foi necessário andar desiludido,
Alegra-me sentir que fui odiado
Na certeza imortal de ter vencido!

Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Áquilo que nos fez ser infelizes!

E assim cheguei à luz de um pensamento
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento.


António Botto in «Aves de um Parque Real»

Quando te conheci (Juan Andrés Leiwir)

Uma sensação muito estranha,
algo difícil de explicar…
como se um anjo
Acariciara-me a alma…
e meu coração quisera voar…
De repente, uma invasão de silêncio…
como se os pássaros deixassem de cantar,
o vento que revolvia meu cabelo,
por um instante, deixou de soprar…
Em verdade não tinha muito claro
se estava sonhando, ou se era realidade…
…que tempo durou o feitiço…
…um segundo…ou uma eternidade?
Só sei que alucinaram meus sentidos,
o dia que meus olhos, conheceram teu olhar…

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)


Cuando te conoci
Juan Andrés Leiwir

Una sensación muy extraña,
algo difícil de explicar…
como si um Angel
me acariciara el alma…
y mi corazón quisiera volar…
De repente, una invasión de silencio…
como si los pájaros dejaran de cantar,
el viento que revolvia mi pelo,
por un instante, dejo de soplar…
En verdad no tênia muy claro
si estaba soñando, o era realidad…
…que tiempo duró el hechizo…
…un segundo… o una eternidad…?
solo se que alucinaron mis sentidos,
el día que mis ojos, conocieron tu mirar…

Fonte: www.poesialatina.com.br

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Sobre este blog

Este blog é uma homenagem aos grandes poetas, gênios que conseguiram transformar em palavras, todo forma de sentimento humano.


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Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. (...) Fernando Pessoa
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