De outro.
Será de outro.
Como antes de meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro.
Seus olhos infinitos.
Já não a quero, é verdadeiro, mas talvez a quero.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta a tive entre meus braços,
minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Ainda que este seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que eu lhe escrevo."
Plabo Neruda
(do "Poema 20 de Veinte poemas de amor y una canción desesperada)
Poema 20
Marcadores: Amor , Pablo Neruda , Poesia
XII
Plena mulher, maça carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz moídos,
que escura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ares sufocados e bruscos tempestades de farina:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por apenas um mel derrotado.
Beijo o teu beijo e recorro ao teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povos pequenos,
e ao fogo genital transformado em tua delicia.
Corre pelos pálidos caminhos do sangre
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão um raio na sombra.
Marcadores: Amor , Erótico , Pablo Neruda , Poesia
Se as minhas mãos pudessem desfolhar-Frederico Garcia Lorca

Se as minhas mãos pudessem desfolhar
Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.
Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!
Marcadores: Amor , Frederico G. Lorca , Lorca , Poesia
Fado para Valéria

Onde estavas tu amor
Onde estavas?
Quando nos dias de chuva triste
Deste sonho que não existe
Eu chorava e tu cantavas.
Onde estavas tu amor
Por onde andavas?
Nos dias de tempestade
Em que eu morria de saudade
Não era em mim que tu pensavas.
Onde estavas tu amor
Onde te encontravas?
Quando perdi toda a razão
E parti o meu coração
Por ser quem tu não amavas.
Onde estavas tu amor?
Onde estavas?
João Natal
Marcadores: Amor , Fado , João Natal , Poesia Portuguesa , Valéria
A Noite na Ilha - Neruda
A Noite na Ilha
Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.
Pablo Neruda
Marcadores: Ilha , Pablo Neruda , Poesia
Noturno - Ariano Suassuna
Noturno
de Ariano Suassuna
Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.
Será que mais Alguém vê e escuta?
Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.
Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?
Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.
Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?
Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mãos…
Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.
Ó meu amor, por que te ligo à Morte?
Fonte: releituras
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O Jardim do Amor fui visitar,
E vi então o que jamais notara:
Lá bem no meio estava uma Capela,
Onde eu no prado correra e brincara.
E os portões desta Capela não abriam,
E "Não farás" sobre a porta escrito estava;
E voltei-me então para o Jardim do Amor
Lá onde toda a doce flor se dava;
E os túmulos enchiam todo o campo,
E eram esteias funerárias as flores;
E Padres de preto, em seu passeio secreto,
Atando com pavores minhas alegrias & amores.
William Blake, in "Canções da Experiência"
Tradução de Hélio Osvaldo Alves
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A Dança
Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo secretamente, e uma sombra entre a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
oculta dentro de si, uma daquelas flores Luz,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascender da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo directamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
Se não és assim deste modo em que não sou nem
tão perto que a tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Pablo Neruda
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