
Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?
Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.
A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.
Pablo Neruda
Tuas Mãos - Pablo Neruda
Marcadores: Amor , Mãos , Pablo Neruda
A um Gato - Jorge Luis Borges
Os espelhos não são mais silenciosos, nem mais furtiva a aurora aventureira: eras, à luz da lua, essa pantera que ao longe divisamos, temerosos. Por obra indecifrável de um decreto divino, te buscamos baldamente; mais remoto que o Ganges ou o poente, a solidão é tua, e o mais secreto. Teu lombo condescende à vagarosa carícia de uma mão. Tens admitido, desde essa eternidade que é já sabido, o amor de minha mão tão receosa. Em outro tempo estás: és dom, suponho, de um âmbito cerrado como um sonho. No son más silenciosos los espejos Por obra indescifrable de un decreto divino, Tu lomo condesciende a la morosa caricia de mi mano. ~Jorge Luis Borges
A un gato
ni más furtiva el alba aventurera;
eres, bajo la luna,
esa pantera que nos es dado divisar de lejos.
te buscamos vanamente;
más remoto que el Ganges y el poniente,
tuya es la soledad, tuyo el secreto.
Has admitido, desde esa eternidad que ya es olvido,
el amor de la mano recelosa.
En otro tiempo estás.
Eres el dueño de un ámbito cerrado
como un sueño.
O pássaro azul - Charles Bukowski

“Há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí,não deixarei que ninguém o veja.
Há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
Há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo ?
(…) Há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
Eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
Depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você ?”
Marcadores: Bukowski , Passaro Azul , poemas
Outras freqüências
Seria mais fácil fazer como todo mundo faz
O caminho mais curto, produto que rende mais
Seria mais fácil fazer como todo mundo faz
Um tiro certeiro, modelo que vende mais
Mas nós dançamos no silêncio
Choramos no carnaval
Não vemos graça nas gracinhas da TV
Morremos de rir no horário eleitoral
Seria mais fácil fazer como todo mundo faz
Sem sair do sofá, deixar a Ferrari para trás
Seria mais fácil, como todo mundo faz
O milésimo gol sentado na mesa de um bar
Mas nós vibramos em outra freqüência
Sabemos que não é bem assim
Se fosse fácil achar o caminho das pedras
Tantas pedras no caminho não seria ruim
Humberto Gessinger
