A um Gato - Jorge Luis Borges






Os espelhos não são mais silenciosos,

nem mais furtiva a aurora aventureira:

eras, à luz da lua, essa pantera

que ao longe divisamos, temerosos.


Por obra indecifrável de um decreto

divino, te buscamos baldamente;

mais remoto que o Ganges ou o poente,

a solidão é tua, e o mais secreto.


Teu lombo condescende à vagarosa

carícia de uma mão.

Tens admitido,

desde essa eternidade que é já sabido,

o amor de minha mão tão receosa.


Em outro tempo estás: és dom, suponho,

de um âmbito cerrado como um sonho.




A un gato

No son más silenciosos los espejos
ni más furtiva el alba aventurera;
eres, bajo la luna,
esa pantera que nos es dado divisar de lejos.

Por obra indescifrable de un decreto divino,
te buscamos vanamente;
más remoto que el Ganges y el poniente,
tuya es la soledad, tuyo el secreto.

Tu lomo condesciende a la morosa caricia de mi mano.
Has admitido, desde esa eternidad que ya es olvido,
el amor de la mano recelosa.
En otro tiempo estás.
Eres el dueño de un ámbito cerrado
como un sueño.

~Jorge Luis Borges


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Este blog é uma homenagem aos grandes poetas, gênios que conseguiram transformar em palavras, todo forma de sentimento humano.


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Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. (...) Fernando Pessoa
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