Soneto do Orfeu




São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar, que atua desvairado
Vem unir-se uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Uma mulher que é feita de música
Luar e sentimento, e que a vida
Não quer, de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento,
Tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes

Traduzir-se - Ferreira Gular

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Vida





NUNCA TE ARREPENDAS DE UM DIA DE TUA VIDA


Os bons dias te dão felicidade.


Os maus te dão experiência.

Ambos são essenciais para a vida.

A felicidade te faz doce.

Os problemas te mantem forte.


As penas te mantem humano.

As quedas te mantem humilde.

O bom êxito te mantem brilhante.

Mas só Deus te mantem caminhando....



Anônimo

HUMILDADE

Tanto que fazer!

livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,

línguas que não se aprendem,

amor que não se dá,

tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,

crianças chorando na tempestade,

cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...

até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuva.

E os mortos em redoma de cânfora.

(E uma canção tão bela!)

Tanto que fazer!

E fizemos apenas isto.

E nunca soubemos quem éramos,

nem para quê.


CECILIA MEIRELES

Recado aos Amigos Distantes






Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecília Meireles

Retrato






Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazio,

nem o lábio amargo.



Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.



Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

- Em que espelho ficou perdida

a minha face?



Cecília Meireles



Os teus pés


Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada purpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouo levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.




Pablo Neruda

ALGUM LUGAR




ALGUM LUGAR ( ROBERT CREELEY )

Resolvi, eu encontrei em minha vida
um centro e o finquei.

É a casa, árvores além, um limite
de vista que a contorna.

O tempo chega só como algum
vento, um pouco suspiro amortecido.

E se a vida não fosse ?

quando algo estava para acontecer,

se eu o tivesse fincado,

tivesse, insistente.

Nada existe que eu seja, nada não.

Um entre lugar, eu sou.

Sou mais do que idéia,

menos do que idéia.

Uma casa, ventos, mas uma distância , algo solto no vento,

sentindo o tempo como aquela vida, anda para as luzes que ele deixou.


Tradução de Régis Bonvicino e João Almino

Tuas Mãos - Pablo Neruda




Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.

Pablo Neruda

A um Gato - Jorge Luis Borges






Os espelhos não são mais silenciosos,

nem mais furtiva a aurora aventureira:

eras, à luz da lua, essa pantera

que ao longe divisamos, temerosos.


Por obra indecifrável de um decreto

divino, te buscamos baldamente;

mais remoto que o Ganges ou o poente,

a solidão é tua, e o mais secreto.


Teu lombo condescende à vagarosa

carícia de uma mão.

Tens admitido,

desde essa eternidade que é já sabido,

o amor de minha mão tão receosa.


Em outro tempo estás: és dom, suponho,

de um âmbito cerrado como um sonho.




A un gato

No son más silenciosos los espejos
ni más furtiva el alba aventurera;
eres, bajo la luna,
esa pantera que nos es dado divisar de lejos.

Por obra indescifrable de un decreto divino,
te buscamos vanamente;
más remoto que el Ganges y el poniente,
tuya es la soledad, tuyo el secreto.

Tu lomo condesciende a la morosa caricia de mi mano.
Has admitido, desde esa eternidad que ya es olvido,
el amor de la mano recelosa.
En otro tiempo estás.
Eres el dueño de un ámbito cerrado
como un sueño.

~Jorge Luis Borges


O pássaro azul - Charles Bukowski



“Há um pássaro azul em meu peito

que quer sair

mas sou duro demais com ele,

eu digo, fique aí,não deixarei que ninguém o veja.

Há um pássaro azul em meu peito que

quer sair

mas eu despejo uísque sobre ele e inalo

fumaça de cigarro

e as putas e os atendentes dos bares

e das mercearias

nunca saberão que

ele está

lá dentro.

Há um pássaro azul em meu peito

que quer sair

mas sou duro demais com ele,

eu digo,

fique aí,

quer acabar comigo ?

(…) Há um pássaro azul em meu peito que

quer sair

mas sou bastante esperto, deixo que ele saia

somente em algumas noites

quando todos estão dormindo.

Eu digo: sei que você está aí,

então não fique triste.

Depois, o coloco de volta em seu lugar,

mas ele ainda canta um pouquinho

lá dentro, não deixo que morra

completamente

e nós dormimos juntos

assim

como nosso pacto secreto

e isto é bom o suficiente para

fazer um homem

chorar,

mas eu não choro,

e você ?”




Ana e o Mar

Outras freqüências

Seria mais fácil fazer como todo mundo faz
O caminho mais curto, produto que rende mais
Seria mais fácil fazer como todo mundo faz
Um tiro certeiro, modelo que vende mais

Mas nós dançamos no silêncio
Choramos no carnaval
Não vemos graça nas gracinhas da TV
Morremos de rir no horário eleitoral

Seria mais fácil fazer como todo mundo faz
Sem sair do sofá, deixar a Ferrari para trás
Seria mais fácil, como todo mundo faz
O milésimo gol sentado na mesa de um bar

Mas nós vibramos em outra freqüência
Sabemos que não é bem assim
Se fosse fácil achar o caminho das pedras
Tantas pedras no caminho não seria ruim

Humberto Gessinger

RESSACA


Quando já a ressaca deixe minha alma na praia,
e do arco cansado de meu ombro se vai
a asa cortada, qual vela desafiante,
em cicatriz e marca prolongará o instante.

Ficarão vigiando, símbolo trivial,
dois pobres olhos pródigos e uma mendiga fronte
Catacumba de água, amor! Não me conheces!

Nem ninguém nos conhece. Só há fugazes toques,
desencontros, na apertada mudez de encruzilhadas.
Expiam sua demora, presenças nunca achadas.

Não são cruz já os braços nem altar para holocausto
de selvagens ternuras. Com seu resplendor exausto,
um sol desalentado afunda os abismos.

Somos pó e luzeiro, tudo em nós mesmos.

Para esta elementar cinza taciturna
seja a imensa lágrima do Mar celeste urna.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)




Resaca
Yolanda Bedregal

Cuando ya la resaca deje mi alma en la playa,
y del arco agobiado de mi espalda se vaya
el ala cercenada, cual vela desafiante,
en cicatriz y estela prolongará el instante.

Quedarán vigilando, símbolo intrascendente,
dos pobres ojos pródigos y una mendiga frente.
¡Catacumba de agua, amor! ¡No me conoces!

Ni nadie nos conoce. Sólo hay fugaces roces,
desencuentros, en la prieta mudez de encrucijadas.
Expían su demora presencias nunca halladas.

No son cruz ya los brazos ni altar para holocausto
de salvajes ternuras. Con su claror exhausto,
un sol desalentado ahonda los abismos.

Somos polvo y lucero, todo en nosotros mismos.

Para esta elemental ceniza taciturna
sea la inmensa lágrima del Mar celeste urna.

Apetece - Miguel Torga

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!



Miguel Torga in "Cântico do Homem" 1950

O sono é Suave - Fernando Pessoa

O SONO É SUAVE, mas o meio-sono
É mais suave ainda. Estar sabendo
Que se está nesse lúcido abandono
É como a brisa à sombra se entretendo.

O amor é suave, mas o amar-talvez
É mais suave ainda. É como estar
Sobre a extensão alegre de um convés
A fitar sem os ver o céu e o mar.

A vida é suave, mas poder haver
Outra melhor é mais suave ainda.
É como entre a erva alta o malmequer
Que, uma vez visto, todo o campo alinda.

Assim, sob altos ramos rumorosos
Pensei, e a breve e incerta viração
Dava-me pensamentos mais ditosos
Do que quaisquer felicidades dão.

Pouco sabemos do que há ou somos.
Nada sabemos do que nos espera.
Para uns a vida é fruta, com seus gomos
Para outros é só a primavera.


29/06/1919
Fernando Pessoa in «Poemas 1908-1935»

Soneto -Antonio Botto


Se, para possuir o que me é dado,
Tudo perdi e eu próprio andei perdido,
Se, para ver o que hoje é realizado,
Cheguei a ser negado e combatido.

Se, para estar agora apaixonado,
Foi necessário andar desiludido,
Alegra-me sentir que fui odiado
Na certeza imortal de ter vencido!

Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Áquilo que nos fez ser infelizes!

E assim cheguei à luz de um pensamento
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento.


António Botto in «Aves de um Parque Real»

Quando te conheci (Juan Andrés Leiwir)

Uma sensação muito estranha,
algo difícil de explicar…
como se um anjo
Acariciara-me a alma…
e meu coração quisera voar…
De repente, uma invasão de silêncio…
como se os pássaros deixassem de cantar,
o vento que revolvia meu cabelo,
por um instante, deixou de soprar…
Em verdade não tinha muito claro
se estava sonhando, ou se era realidade…
…que tempo durou o feitiço…
…um segundo…ou uma eternidade?
Só sei que alucinaram meus sentidos,
o dia que meus olhos, conheceram teu olhar…

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)


Cuando te conoci
Juan Andrés Leiwir

Una sensación muy extraña,
algo difícil de explicar…
como si um Angel
me acariciara el alma…
y mi corazón quisiera volar…
De repente, una invasión de silencio…
como si los pájaros dejaran de cantar,
el viento que revolvia mi pelo,
por un instante, dejo de soplar…
En verdad no tênia muy claro
si estaba soñando, o era realidad…
…que tiempo duró el hechizo…
…un segundo… o una eternidad…?
solo se que alucinaron mis sentidos,
el día que mis ojos, conocieron tu mirar…

Fonte: www.poesialatina.com.br

O Anjo mais Velho - Fernando Anitelli

“O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente”

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
enchendo a minha alma d’aquilo que outrora eu deixei de acreditar

tua palavra, tua história
tua verdade fazendo escola
e tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

metade de mim
agora é assim
de um lado a poesia o verbo a saudade
do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
e o fim é belo incerto… depende de como você vê
o novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você

Retirado de www.oteatromagico.mus.br

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Este blog é uma homenagem aos grandes poetas, gênios que conseguiram transformar em palavras, todo forma de sentimento humano.


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Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. (...) Fernando Pessoa
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